Recebam com uma salva de palmas a Patrícia, que é psicoterapeuta, psicanalista, e nos falará um pouco sobre depressão pós-parto.
Line - criadora deste blog -
me convidou para escrever um artigo sobre depressão pós-parto para o 'Mamãe
Moderna' por conta do suporte voluntário que prestei como mãe e psicóloga por
quase três anos à comunidade 'Depressão Pós-Parto/ Pós-Filho' no Orkut. Claro
que eu não oferecia uma 'psicoterapia online' lá - que aliás é prática proibida
pelo Conselho Federal de Psicologia até hoje* - e nem emitia pareceres ou algo
assim, mas procurava acolher e apoiar mães aflitas com as transformações na
vida depois da chegada de um filho.
Fui testemunha de muita dor,
confusão, revolta, decepção. De alegria e comemoração também? Sim, sem dúvida,
mas o fato é que ninguém corre para uma comunidade virtual com esse nome porque
está 'no paraíso' com a maternidade; corre porque está 'padecendo', e muito, e
no fundo não sabe para onde correr no mundo real.
A maioria das pessoas não
gosta nada de ouvir que a maternidade inclui muita chatice. Se você decide
desabafar com alguém, as chances de ouvir um sermão em vez de receber apoio são
altíssimas. 'Mas bebês e crianças são bênçãos de Deus!', 'Não fale isso que
chega a ser pecado!', 'Mas não era o que você queria, um filho?', 'Criança dá
trabalho mesmo! Você também deu e muito, e ninguém nunca reclamou!' etc. etc. A
verdade é que existe até uma raiz biológica para essa rejeição do ser humano em
admitir o lado pesado e sombrio da maternidade: como ficará a continuidade da
espécie se a mulherada concluir que seus anos férteis não devem ter como
prioridade a reprodução e os cuidados com a prole?
O que será do mundo sem mães
e crianças?? ...
Hummm... Me ponho a
refletir: como seria um mundo sem mães e crianças? Muito chato com certeza, e
pouco aconchegante e acolhedor. Por outro lado também seria mais limpo,
organizado e prático. Mulheres não viveriam à beira de um ataque de nervos,
divididas entre a cruz (filho, casa, tarefas) e a espada (seus sonhos,
anseios), atordoadas com tantas preocupações, prazos e tarefas.
Hummm ... Só que se mais
pessoas se dispusessem a cooperar na educação e nos cuidados para com as
crianças (no tempo em que estas estão em férias, nos fins de semana e fora do
horário de estudo), o mundo continuaria a usufruir das 'vantagens' das crianças
(alegria, diversão, surpresas, brincadeiras, fofurice, continuidade da espécie)
e suas 'desvantagens' (cólica, febre, refluxo, gengiva rachando, noites e
noites em claro, quedas, doenças, manhas, birras, quilos de roupas para lavar,
gastos sem fim, brincadeiras repetitivas, restrição quase total da liberdade)
ficariam mais diluídas e não sobrecarregariam uma criatura só - a Mãe. Aliás,
essa criatura estressada e culpabilizada passaria a ser muito mais tranquila,
agradável no trato e, portanto, mais feliz no seu papel.
Antigo ditado africano: "It takes a
village to raise a child." Tradução livre: 'É preciso uma comunidade para
criar uma criança.'
Em suma, o mundo moderno
deseja crianças e precisa delas mas não quer dividir a responsabilidade pelos
pequenos, não quer participar da parte chata e pesada da criação de um ser
humano.
E nós, mães, somos parte do
problema. Se queremos uma mudança, ela tem que começar conosco. Temos que lutar
contra nossa compulsão de estar no controle e de competir. Sim, somos super
competitivas, apesar de disfarçamos bem - enganamos até a nós mesmas!!
Confiar em outras pessoas é
fundamental. Você não consegue confiar? Busque ajuda psicoterápica para
transformar isso!! Está em suas mãos! Pessoas confiáveis existem, sim, mas se
continuarmos nessa paranóia de que nós fazemos tudo melhor do que o outro, jajá
não só não existirão mais pessoas confiáveis mesmo como nós seremos as
primeiras a nos tornar indignas de confiança. A desconfiança é um veneno que
corrói aos poucos quem se acha prevenido e cauteloso.
Obviamente não estou aqui
defendendo que todo mundo é ovelhinha de presépio. Só afirmo que não existem
tantos Judas por aí como gostamos de acreditar. Aliás, com certeza existem
muitas pessoas que são melhores e mais confiáveis do que nós mesmas.
Delegar e pedir ajuda não
tem nada a ver com querer fugir da responsabilidade. Na verdade, delegar é uma
necessidade vital para os responsáveis. Quem é responsável sabe que não dá
conta de tudo. Quem é responsável conhece os próprios limites; sabe que se passar
daquele ponto vai fazer mal-feito, de má vontade, e que todos perderão com
isso.
A pessoa responsável não é
mártir e nem masoquista. É esforçada e dedicada, mas não compete em nenhuma
corrida maluca que na realidade só existe dentro da própria cabeça.
* O CFP permite
"Orientação Psicológica Online" (consulte
http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/resolucao2005_12.pdf)
Patrícia Cypriano Seixas
CRP 06/51248
Mãe, psicoterapeuta e psicanalista
Criadora do "SOS Mãe"






